#NãoàAnexação

Vista do Vale do Jordão, tirada da cidade de Aqraba ©EAPPI/A.P.

No dia 1° de julho de 2020, o Estado de Israel se prepara para legitimar a anexação das vastas porções de terras palestinas. A colonização da Palestina já acontece há mais de sete décadas. O Plano de Partilha da ONU – que a fragmentou em dois Estados – a institucionalização do movimento sionista e a ocupação militar em 1967 capturaram grande parte das terras.
O “acordo do século” desmascara as verdadeiras intenções dos Acordos de Oslo, de 1993. Para quem não sabe ou esqueceram o que os Acordos ‘de paz’ de Oslo fizeram com o povo palestino, é preciso relembrar. Os Acordos de Oslo prometiam: (1) o reconhecimento mútuo entre o Estado de Israel e a Autoridade Palestina – Yasser Arafat reconheceu Israel, o contrário não aconteceu; (2) estabelecer um governo palestino na Faixa de Gaza e Cisjordânia, respeitando as Resoluções 242 da ONU. Ou seja, significava que no período de ‘transição’ de autonomia, Israel se retiraria dos territórios ocupados, começando com a retirada militar e das colônias ilegais judaicas da Faixa de Gaza e de Jericó. Nenhum dos Acordos foi respeitado. Não houve desmilitarização, retirada de colônias, nem o estabelecimento de um Estado palestino.

O que Oslo nos ensina? Que o Estado colonizador nunca pretendeu abrir mão de suas colônias. O “acordo do século”, na realidade, não propõe um ‘acordo’ ou uma ‘negociação’, ele impõe uma soberania total do Estado de Israel sobre a Palestina. O plano contém 180 páginas que assumem a normalização do cerco à Gaza, a legalização das colônias, da tomada de terra pela força, dos 700 km do Muro, do roubo de água e recursos naturais, da segregação, do regime racial de apartheid e da opressão militar. Todo o direito internacional e as Resoluções da ONU serão anulados e substituídos por um direito de limpeza étnica. Nisso, as questões urgentes como o direito de retorno dos refugiados de 1948, o status de Jerusalém e a constituição de um Estado palestino soberano – ou mesmo de um estado binacional – não são negociáveis.

#NãoàAnexação #NoToAnexation

M.R
EA do Grupo 57, Jerusalem

As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina-Israel. Para publicar este texto ou citá-lo em outra fonte, por favor contatar a Coordenação Nacional do PAEPI através do  email paepibrasil@gmail.com.

Obrigada(o).

#NãoàAnexação

Vale do Jordão, 2019. ©EAPPI/B.W.

Na tarde do dia 27 de setembro, Ahmad Fukha, de 17 anos, dirigia da cidade de Tubas, no norte do Vale do Jordão, em direção a Jenin junto de seus vizinhos para trabalhar, quando foram parados pelo exército israelense na estrada. Segundo ele, outros trinta ou quarenta carros aguardavam a revista e autorização para seguir viagem, porém o carro do grupo foi imediatamente visado pelos soldados.

A equipe do EAPPI conversou com o adolescente poucos dias depois no jardim da casa da família. Conforme Ahmad relatou, os quatro foram retirados do carro e tiveram seus telefones celulares confiscados. Oito ou nove soldados revistaram o carro inteiro à procura de armas, mas não encontraram. Amed Ilkhilani, de 25 anos, um dos vizinhos de Ahmad, foi
algemado e vendado. Seu pai, Nader Ilkhilani, que também estava no carro, pediu explicações sobre a detenção mas não teve resposta. Ahmad então se dirigiu ao grupo de militares na tentativa de explicar que Nader só queria ver o filho e foi agredido por três soldados, levando coronhadas no pescoço até perder a consciência.

Foi também agredido no peito e nos dias que seguiram teve dificuldades para respirar. As autoridades do governorado de Tubas não acompanharam o caso e a família não foi assistida nem pela Autoridade Palestina, nem por organizações internacionais. Ahmad é hoje a única fonte de renda da família. O adolescente não tinha notícias do paradeiro de Amed e nem sabia a razão de sua prisão. Algumas semanas depois, em nova visita, nos foi relatado que o vizinho estaria detido em prisão no deserto do Negev, mas sua família ainda não tinha tido contato com ele.

Ao redor dos territórios ocupados, tantas histórias como as de Ahmad e Amed se repetem. De acordo com dados divulgados pela Addameer, organização de trabalho com direitos humanos e apoio a presos palestinos, hoje existem 5000 presos políticos espalhados pelos territórios da Palestina e de Israel – em sua maioria, presos em checkpoints, em incursões nas comunidades e em protestos e manifestações. 425 deles em detenções administrativas – procedimento que permite que Israel mantenha presos
indefinidamente sob informação secreta, sem acusação e sem permitir que sejam julgados.

Tal configuração se reflete na negação e cooptação sistemática do acesso palestino a direitos básicos através do controle institucional israelense na Cisjordânia. Nesse contexto, pouco a pouco a apropriação dos recursos, somada ao assédio e à violência, tornam involuntária a busca pelo refúgio.

A partir do dia 1º de julho deste ano deve ser implementado o “Plano de Paz” proposto pelo governo americano e vastamente criticado pela comunidade internacional, uma vez que habilita Israel a aplicar soberania sobre os territórios palestinos e anexar a região do Vale do Jordão, hoje Palestina.

Eu digo não à anexação porque ela é parte de um projeto de limpeza étnica contra a população palestina, porque formaliza o estado de apartheid israelense colocando as comunidades palestinas em ainda mais vulnerabilidade e porque destrói qualquer projeção de resolução.

B.W
EA do Grupo 76, Jordan Valley

As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina-Israel ou de KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço. Para publicar este texto ou citá-lo em outra fonte, por favor contatar a Coordenação Nacional do PAEPI através do  email paepibrasil@gmail.com.

Obrigada(o).

ARQUIPÉLAGO DE SANGUE VERDE-OLIVA

Uma mulher livre
Num país ocupado
Filhos pelo mundo
Em busca do que lhes é negado

Uma mulher de cabelos vermelhos
De meia idade
com véu frouxamente cobrindo-lhe os cabelos.
A face do sonho de liberdade
Bela queimada desbotada pelo Sol

Cansada.
Das injustiças que ardem seu corpo,
Sua terra e sua gente
há gerações e à ocupações
(sobre)vive?

Cansada, ou não,
Esboça um sorriso profundo
sem tamanho ou força
amarelo como Sol.
“Ela vem pra todos”

Olhos-cor-de-mel
Pele-cor-de-deserto
Terra-cor-de-sangue
Sangue da liberdade
vermelho, preto em manto verde-oliva.

“Palestina Livre”, como livre?
Arquipélago em mar de sangue
a morte é a única a romper livre.
“Calma meu filho, o Sol sempre nasce”
Ardente e inevitável é a liberdade.

Paz sem corpo. Corpo sem paz
Demolition orders, tribunais militares
Checkpoints, Firing zones
Closed military zones.
Oslo já nasceu morto.

Mas a liberdade tem corpo e véu
Keffiyeh em trapos verde-oliva.
Fortes e resilientes.
O povo-Sol das oliveiras e ovelhas.

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Colinas ao Sul de Hebron, Qawawis. Pastora de ovelhas é regularmente assediada e agredida fisicamente por colonos israelenses ilegais do outpost de Mitzpe Yair. A equipe do EAPPI tem como prioridade oferecer presença protetiva a pastores e/ou agricultores em situação de vulnerabilidade e insegurança. ©EAPPI/J.M. 

J.M
EA do Grupo 76, South Hebron Hills.

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Obrigada(o).

Uma viagem à Yarza

Khirbet Yarza é uma comunidade palestina localizada no Vale do Jordão (VJ), Cisjordânia, território Palestino ocupado (tPo). Atualmente composta por cerca de 80 pessoas divididas em 13 famílias, a aldeia já foi lar para mais de 120 famílias no período anterior à Guerra Árabe-Israelense dos Seis Dias em junho de 1967. Yarza fica ao norte do VJ, seus moradores vivem de agricultura e pastoreio e as maiores questões relatadas pela comunidade estão atreladas às ordens israelenses de demolições e confisco, aos treinamentos militares e à falta de serviços básicos.

Você pode se perguntar: mas por que Yarza foi a escolhida da vez já que aparentemente ela sofre dos mesmos problemas que outras aldeias? Bom, o trabalho de campo dos EAs é bem intenso e, particularmente no Vale do Jordão, isso quer dizer dirigir por mais de uma hora todos os dias pelo território para alcançar as comunidades de mais difícil acesso sendo elas, também, as que mais sofrem violações de direitos humanos. O tempo dentro do veículo também é de aprendizado já que memorizamos as comunidades palestinas, os assentamentos israelenses, as bases militares, as palmeiras e plantas cultivadas na região.

A viagem à Khirbet Yarza foi a mais longa feita pelo nosso time, só os últimos 7 km demoram mais de meia hora. Os territórios da Palestina e do Vale do Jordão são muito menores do que o brasileiro. Para ter-se uma ideia, a Cisjordânia é considerada o 163º país de maior extensão territorial enquanto o Brasil é o quinto. O caminho até Yarza é muito montanhoso e cheio de vistas deslumbrantes.

O primeiro sentimento ao se chegar em Yarza foi que esse era o local mais bonito visitado pela nossa equipe na Palestina. É uma beleza ímpar, especialmente durante os meses de chuva, quando as montanhas florescem majestosamente. Tivemos um sentimento de que ali era um lugar especial. E é mesmo, mas por razões diferentes. Ao conversar com o representante do conselho local, Mukhlis Masaeid, percebe-se que o local premiado com a maior beleza por nós EAs do VJ esconde uma tristeza enorme. Muitos artefatos da ocupação israelense somam-se naquele lugar. Não há brecha para Yarza.

A realidade da comunidade é de treinamentos militares ainda mais rotineiros, quase que diários. Aqueles maiores que envolvem tanques de guerra e demais equipamentos pesados ocorrem duas vezes na semana, segundo o senhor Mukhlis. A violência dos treinamentos militares em Yarza resultou, por exemplo, em balas perdidas alojadas há décadas nos corpos dos pais do representante de conselho. À noite também não há paz. As Forças de Defesa Israelenses (FDI) – o exército israelense – invadem lares rotineiramente como parte dos treinamentos. Às vezes prendem alguém e às vezes não. Relatos das comunidades afirmam que esse método utilizado resulta em pessoas perdendo a capacidade de dormir e descansar, o que gera um nível de stress e angústia constantes, especialmente nas crianças. O senhor Mukhlis afirma que a comunidade é utilizada pelo exército israelense como experimento.

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Mukhlis, Khirbet Yarza –  ©EAPPI/DF

Yarza faz parte do governo de Tubas, cidade referência para aldeias menores da região. De acordo com o representante do conselho local, as FDI já demoliram a estrada que conecta Yarza à Tubas cinco vezes, demoliram a mesquita da comunidade três vezes e praticam demolição de casas e abrigos para ovelhas rotineiramente. O sistema extremamente rígido de permissões emitidas pelo estado de Israel não permite com que a comunidade construa uma escola nova, assim afastando pais de seus filhos que são obrigados a morarem em Tubas. Além das ordens de demolições e de cessar construções, recentemente, Yarza recebeu uma ordem de confisco de terra. A ordem especifica a apropriação de centenas de milhares de metros quadrados de terra palestina.

Também tivemos a oportunidade de conhecer os pais do senhor Mukhlis, idosos palestinos que guardam consigo lembranças das gerações anteriores que viveram em território palestino antes da criação de Israel. O pai e a mãe carregam em si a dor da ocupação, dentro de seus corpos, existem balas israelenses alojadas há anos. Eles afirmam viver o desgaste e a injustiça da ocupação.

Ao nos relatar a história de Yarza, o representante do conselho local também nos mostrou a vista do ponto mais alto da comunidade. Lugar onde testemunhamos os primeiros fogos do período da seca. Durante os meses mais quentes e secos do ano, os treinamentos militares que envolvem tiros e bombas possibilitam o alastro de fogos no Vale do Jordão. Eles resultam na queima de agriculturas e prejudicam a vida e economias locais.

Conhecer Khirbet Yarza foi, assim, uma experiência muito forte. O encanto permanece mas é diferente. Yarza continua sendo linda mas agora ela tem uma beleza dura, cheia de espinhos. A tristeza e indignação na narrativa palestina, no entanto, acompanham afirmações de resiliência e luta. Existir é resistir.

Fatima Odeh
EA do Grupo 75, Vale do Jordão.

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina-Israel. Para publicar este texto ou citá-lo em outra fonte, por favor contatar a Coordenação Nacional do PAEPI através do  email paepibrasil@gmail.com.

Obrigada(o).

Um pastor na Terra Santa

Vale do Jordão, conhece? Lembra as histórias bíblicas na catequese? O Vale do Jordão é um território de 2400 km² e lar para cerca de 70,000 pessoas – mais de 61,000 palestinos e 9,500 colonos israelenses. O Vale do Jordão faz parte da Cisjordânia, território palestino ocupado (tPo). Desde os Acordos de Oslo nos anos 1990, o tPo é dividido em áreas A, B e C. O que seria uma situação temporária permanece até hoje. Tais áreas indicam qual a autoridade responsável no local, sendo a área C controlada pelo estado de Israel. O nosso trabalho é majoritariamente nessas áreas, onde não há muito alcance do governo palestino e onde os palestinos encontram-se mais vulnerabilizados.

Tenho tentado entender o que ocorre por aqui. Palestina, Israel, assentamentos, ocupação, soldados, colonos, israelenses, palestinos, resiliência, sofrimento, amor. Eu, junto com o meu time, somos responsáveis pela cobertura do PAEPI no Vale do Jordão. O Vale do Jordão é localizado no leste da Cisjordânia, faz fronteira com a Jordânia e é conhecido como o ‘celeiro da Palestina’.

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©EAPPI/F.O.

Segundo a organização palestina de direitos humanos Al Haq, “o Vale do Jordão abrange acima de um quinto do território da Cisjordânia e contém reservas de terra vitais para a expansão natural de aldeias e cidades palestinas. Ele tem recursos hídricos abundantes – incluindo um terço das reservas de água subterrânea da Cisjordânia – e tem um potencial enorme para as indústrias agrícolas e de turismo. O desenvolvimento econômico do Vale do Jordão é considerado essencial para a recuperação e o crescimento palestino e é, assim, crucial para a sustentabilidade e viabilidade de um Estado Palestino independente”.

A cobertura territorial do nosso grupo abrange, desse modo e dentre outras, terras pertencentes a agricultores e pastores palestinos. Pastorear é um ato revolucionário na Palestina. Sair com as suas ovelhas requer, além da dedicação e experiência, atos  calculados e estratégicos. Tendo acompanhado esses modos de vida desde o início de abril, o meu testemunho é que a agricultura e o pastoreio são comprometidos pela ocupação israelense. Agricultores têm o acesso a suas terras limitado e pastores muitas vezes são impossibilitados de pastorear afastados de suas casas, mesmo que a terra seja comprovadamente pertencente a eles. Há terras que não são cultivadas pois não podem ser acessadas e outras impossibilitadas de serem alcançadas pelos palestinos. Isso resulta em terra não cultivada por períodos de tempo que podem ser suscetíveis a desapropriação do governo israelense.

Em outro contexto, o pastor se preocupa com o alimento das ovelhas, o calor, o frio, a saúde de seus animais. Aqui, além de todos esses fatores, os camponeses devem se preocupar com a possibilidade de suas ovelhas terem acesso à terra cultivada, com militares chegando e os expulsando de suas terras cultivadas, com suas ovelhas serem abduzidas por colonos israelenses (incidente ocorrido no início desse ano).

Existe intensa presença militar do estado de Israel ao redor das aldeais e vilarejos. O pastor e o agricultor também devem se preocupar com os treinamentos militares. Aqui, é comum ver jeeps, helicópteros, aviões e tanques de guerra. Também é rotineiro ouvir o som de tiros quando se pastoreia. Existe uma tentativa muito concreta de expulsar os palestinos de toda a Cisjordânia, uns locais sentem isso mais que outros. No Vale do Jordão, não é diferente. Enquanto as cidades sentem menos ameaça das autoridades israelenses por estarem localizadas em área A (é importante ressaltar as forças israelenses adentram esse território também quando lhes convém), o território referente à área C lida com treinamentos militares semanalmente ou até diariamente.

O que significa haver treinamentos militares (TM) na sua terra rotineiramente? Isso quer dizer que durante o verão (estação presente), fogos consomem os campos cultivados devido às faíscas dos tiros no solo seco.  Os TM também restringem o direito de ir e vir dos palestinos, limitando-os e seus animais ainda mais em seu próprio território. Antes dos TM, o exército israelense também pode evacuar aldeais palestinas inteiras por muitas horas durante um dia. Pessoas sofrem, também, com aquilo que resta de um treinamento militar. Muitas vezes, restos de bomba e dispositivos não detonados são deixados para trás nesses campos. Tais objetos são muito perigosos devido ao seu status de imprevisibilidade e casos fatais e de diversas lesões envolvendo crianças brincando com esses dispositivos têm sido relatados durante os anos. Os TM também arruínam os campos cultivados já que a presença militar pesada impossibilita o crescimento das plantações e às vezes estraga o solo. Alguns palestinos relatam terem sido vítimas de balas perdidas durante treinamentos militares.

Esses empecilhos diários desgastam as famílias palestinas e as deixam à beira do desespero. No entanto, é importante destacar que aqui, também, testemunho atos de carinho e amor, afeto e amizade. Aqui existe muito sorriso e gargalhada. Muito humor e sarcasmo. A palestina e o palestino encontram formas de lidar com a presença militar e as tristezas de uma terra ocupada. Um pastor do Vale do Jordão me disse: “traga a polícia, os colonos e os soldados israelenses. Traga-os e eu os direi que essa terra é palestina. Nasci aqui, assim como os meus pais e avós. Eles vêm e vão. Eu permanecerei”.

 

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©EAPPI/F.O.

F.O.
EA do Grupo 75, Vale do Jordão.

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Obrigada(o).

Edital 01/2019 – 03 vagas para EA’s

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KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, sending organisation do Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina e Israel (EAPPI) – uma iniciativa ecumênica do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) –, tem o prazer de anunciar a abertura de 03 vagas para participantes brasileiros no ano de 2019.

O edital pode ser encontrado aqui.

Para mais informações: paepibrasil@gmail.com

VOZES QUE SE CRUZAM: uma poética da resistência nos territórios ocupados da Palestina

Quando se ouve a voz de Jibrin Al Baram, sabe-se instantaneamente que algo especial está sendo dito. Pastor de ovelhas de 52 anos, Jibrin vive na comunidade de Qawawis, incrustada em um dos morros de South Hebron Hills, região ao sul de Hebron, Palestina. Localizada na Área C[1] dos Territórios Ocupados Palestinos, portanto, sob o controle militar e administrativo de Israel, Qawawis é um dos motivos da presença do time de acompanhantes ecumênicos do EAPPI naquela região. A comunidade está circundada por colonatos judeus e são inúmeros os relatos de violência contra os palestinos. Este é, sem dúvida, o motivo da maioria das ligações recebidas pelo grupo 63, instalado na cidade de Yatta, província de Hebron. Mas existem outros: demolições, prisões, bloqueio de estradas pelo exército… Para Jibrin, entretanto, o perigo é maior. Sua tenda está isolada em um morro vizinho ao dos demais moradores, instalada em um declive há poucos metros da estrada que conduz ao colonato de Mitzpe Yair. Talvez por isso, sua fala esteja na fronteira entre o medo e a coragem.

“Aquele que luta pela humanidade vencerá sempre.” Assim ele nos recebe em sua tenda para um chá, e assim inicia sua fala. “Nunca vi um crime como esse, que nos tira dinheiro, tempo, ovelhas, que nos tira tudo.” Jibrin se refere aos ataques dos colonos. Devido à sua localização, ele sofre constantes ameaças enquanto pastoreia nas terras próximas ao colonato. Além disso, coleciona histórias de outros pastores e agricultores locais. Conta-nos de como Nael Khaled Abu Aram, outro pastor local, fora atacado e jogado ao chão, espancado a pau por dois colonos judeus enquanto pastorava suas ovelhas. Nael ficou gravemente ferido no braço, ombro e perna, e precisou passar sete meses em recuperação. Fez uma queixa e chegou a reconhecer um dos agressores dentre fotos de colonos mostradas pela polícia israelense, mas o processo não andou. Como a autoridade nesta área pertence a Israel, tudo flui em prejuízo dos palestinos.

Jibrin nasceu em uma caverna próxima à tenda onde mora hoje, a mesma caverna em que nascera seu pai. Nunca deixou sua terra, e nunca deixará, segundo afirma: “Para onde eu iria, para a Síria? Todos os palestinos lá estão morrendo”. Ele viu o primeiro colonato próximo a Qawawis ser fundado em 1983 (colonato de Susya), e os seguintes em 1998 (Mitzpe Yair) e 2001 (Avigayil). Em 2017 completa trinta e quatro anos, mais da metade de sua vida, de uma forçada convivência com judeus ortodoxos, em sua maioria, fundamentalistas que acreditam estarem tomando terras que lhe são suas por determinação divina. Na verdade, palestinos como os habitantes de Qawawis são os donos legais da terra e possuem os documentos de posse. Isso, entretanto, não impede a ação dos colonos, considerados ilegais pela Organização das Nações Unidas, mas encorajados pelo governo de Israel. Acostumado a viver e contar essas histórias aos acompanhantes ecumênicos e outras organizações internacionais, Jibrin desenvolveu uma maneira única de narrá-las e interpretá-las, uma espécie de abrigo pessoal para pensar a violência que presencia quase diariamente: “Imagine que alguém corta a minha garganta. Isso é uma coisa má. Mas se ao menos você contar [a minha história], em seus lábios, em seu coração, ela significará algo, será melhor que nada.” Essa é a sua forma de agradecer a nossa presença e pedir que espalhemos as suas palavras ao resto do mundo.

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Jibrin Al Baram, inconfundível com seu cachimbo enquanto pastoreia seu rebanho de ovelhas. Ao fundo, o colonato de Avigayil, um dos três próximos a Qwawis. Yatta, ©EAPPI/Leonardo V.

Ameaças semelhantes são as que nos levam à comunidade de Umm El Kheir. Esta se encontra lado a lado com o colonato de Karmel, do qual está separada apenas por uma cerca. Aqui, o problema mais frequente são as ordens de demolição. A comunidade já foi vítima de várias demolições, tendo a mais recente ocorrida há pouco mais de dois meses.[2] Recentemente, o grupo 63 atendeu a um chamado de Hamed Qasameh, o responsável pelas operações de campo da UN OHCHR na região sul da Palestina[3], para verificação, em Um El Kheir, do recebimento de doze stop work orders que proíbem obras de qualquer tipo em residências palestinas. Essas ordens são emitidas pela Administração Civil, sob comando de Israel. Segundo dados apresentados no site da organização B’Tselem, os palestinos estão proibidos de construir em cerca de 70% do território da área C.[4] Em Umm El Kheir,  apenas uma das ordens entregues abrange nove residências, entre tendas e casas da comunidade, sendo uma delas datada de vinte anos atrás, forçando uma família a viver por duas décadas sem manutenção em uma construção que já é extremamente precária. Na prática, essas ordens são um prenúncio de novas ordens de demolição que os moradores esperam receber em breve.

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Uma das “casas” sob ordem de demolição em Umm El Kheir. Yatta, ©EAPPI/Leonardo V.

Na comunidade, fomos recebidos por Ihmeed, um garoto de 19 anos, que nos guiou entre as tendas, apontando aquelas sob risco de demolição. De uma delas, sai uma mulher se lamentando. Ela traz a ordem que lhe foi entregue por soldados israelenses e pede que a fotografemos. Em seguida, senta-se em frente à sua casa e chora. “Esta é a minha mãe”, diz Ihmeed. Já sentados, enquanto nos oferece chá, Ihmeed nos conta como as ordens de demolição são entregues com um prazo de alguns dias para ser cumprida. Isso daria a opção aos moradores de demolirem eles mesmos as próprias tendas, em grande medida, uma tortura psicológica. Quando questionado sobre o que fará quando os tratores voltarem, Ihmeed não hesita em dizer: “Morarei debaixo desta pedra [sobre a qual conversávamos]. Eu não deixarei esta terra.”

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Ihmeed, 19 anos, morador de Umm El Kheir, relata à acompanhante ecumênica Liss B.-H como é viver sob a constante ameaça de ter sua casa demolida. Yatta, ©EAPPI/Leonardo V.

Jibrim e Ihmeed, 52 e 19 anos, em pontos opostos da vida, mas atravessados pelo mesmo sofrimento de viver sob ocupação, são a imagem daquilo que o filósofo Michel Onfray chama de “pensadores da existência”. Praticam uma filosofia prática, de enfrentamento na dor, de liberação da angústia e do medo que vivem constantemente. Trazem na fala uma espécie de poesia que só um povo oprimido é capaz de produzir. Tecem uma rede invisível de dizeres que lhe fazem resistir. Mais que isso, eles mostram que a Palestina não precisa de interlocutores, pois já tem uma voz própria. Precisa apenas ser ouvida. Isto nos leva à questão: qual o papel dos acompanhantes ecumênicos nessa luta? Qual a voz que nos cabe aqui?[5]

Estranha combinação de palavras esta: presença protetiva. Mistura de fragilidade e força, mas também de uma fina ironia. Proteger pela presença – como pensar possível esta ação se ao chegar dos tratores, se ao cercar dos soldados de Israel, tudo o que podemos fazer, nós, “internacionais”, é observar, esperar, escrever? Quando vieram pela primeira vez à comunidade de Umm El Kheir, e puseram suas casas no chão, de que serviu estarmos aqui? Quando vierem da próxima vez, que poderemos senão assistir? Talvez na espessura histórica da palavra resida uma resposta. No latim, praesentia,ae significa “presença, aparição dos deuses”. Seu uso data dos séculos XIII e XIV, quando o mundo latinizado – ocidental – dava os primeiros sinais de esgotamento, a fome e a peste grassavam, e as pessoas pediam o auxílio divino.[6] “Estar presente”, então, traz esta herança distante que liga Deus aos homens; é descer ao mais fraco, fazer-se igual, na fragilidade do outro, é afirmar-se humano. Ihmeed entretanto, dá-nos uma outra alternativa. Para ele, está claro o que viemos fazer.  Afinal, ao escutá-lo dizer: “Obrigado por estar aqui, por ver e levar ao mundo a nossa história”, papel e caneta ganham outro sentido.

[1] “Os acordos de Oslo firmado entre Israel e a Organização para Libertação da Palestina, em 1933, dividiu a Cisjordânia em zonas distintas: A, B e C, sob diferentes jurisdições e níveis de controles entre elas.  A área A está sob total controle da Autoridade Palestina e consiste em áreas urbanas. Área B está sob controle civil palestino, e quanto à segurança, está compartilhada com Israel, constituindo, em grande parte, áreas rurais. A área C está sob total controle do poder militar e da Administração Civil Israelense.” Disponível em: https://www.ochaopt.org/documents/ocha_opt_area_c_factsheet_january_2013_english.pdf>. Acesso em: 11/12/2016.

[2] Ver http://www.taayush.org/?p=4270. Acesso em 22 de janeiro de 2017.

[3] Sigla para United Nations Office of the High Commissioner for Human Rights (UN OHCHR) in the Occupied Terriories in Palestine (oPt), a UN OHCHR é a voz das Nações Unidas nas questões de direitos humanos na Palestina.

[4] http://www.btselem.org/planning_and_building/restrictions_on_palestinian_planning_and_building. Acesso em 22 de janeiro de 2017.

[5] ONFRAY, Michel. Michel Onfray: a libertação na filosofia. In: http://www.fronteiras.com/entrevistas/michel-onfray-a-libertacao-na-filosofia. Acesso em 21 de janeiro de 2017.

[6] HOUAISS, Antonio. Grande dicionário Houaiss. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 2291.

Leonardo V

EA do Grupo 63, Yatta, South Hebron Hills.

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 Obrigada(o).

DEMOLINDO CASAS, ENGENHANDO SONHOS: famílias em cerco em Shi’B Al Butum

Quando amanhece na comunidade de Shi’B Al Butum, Sheadi, 5 anos, já está de pé ajudando os pais em tarefas como alimentar as ovelhas e acender o fogo para o chá. Ele e seus seis irmãos moram em uma tenda improvisada e isolada nas montanhas de South Hebron Hills. Em regiões como essa, dentro da área C dos territórios palestinos ocupados[1], sob o controle das forças israelenses, menos de 1% dos palestinos conseguem autorização para construir, e mesmo as tendas como a que abriga a família de Sheadi estão sob ordem de demolição.[2] Também condenadas estão as instalações em cavernas, pois nem todas as famílias das redondezas podem arcar com os custos de uma tenda ao ar livre, e abrigam-se debaixo da terra, dividindo grutas com seus rebanhos de ovelhas. Assim, quando entramos na caverna do tio de Sheadi, convidados para uma xícara de café, a gargalhada foi geral ao desejarmos boa noite – Masa ikher! – às ovelhas da casa.

Uma das tarefas do time de acompanhantes ecumênicos (AE) de South Hebron Hills, instalados em Yatta, Hebron, é fazer presença protetiva durante a noite quando requisitada – os sleep-overs. A grande maioria dos chamados se deve aos ataques dos colonos judeus. Desde 1967, os colonatos israelenses já somam quase 250 em todo o West Bank.[3] Considerados ilegais pela legislação internacional, essas pequenas vilas chegam a abrigar, apenas um deles, dezenas de milhares de judeus ortodoxos fundamentalistas, que se apossam de terras em território palestino, e passam a tornar impossível a vida de comunidades próximas, promovendo ataques – muitos andam armados e são protegidos pelo exército de Israel – e impedindo o acesso dos palestinos aos recursos naturais. Nos últimos meses, um caso especial vem sendo acompanhado pelo time de SHH: o de Mohammed Itzaq al Jabareen e sua família, residente em Shi’B Al Butum.

Mohammed afirma vir sofrendo assédio por parte de colonos e das forças de segurança israelenses. Em seu último telefonema, relatou a abordagem noturna efetuada por soldados, que revistaram sua tenda em busca de supostos “invasores” de um colonato próximo. Em outra ocasião, havia notado um grupo de colonos rondando sua tenda, armados e com um mapa em mãos, fazendo medições em seu terreno. E por aí vão outras formas de pressão psicológica. Seus efeitos são visíveis em seus filhos, incluindo Sheadi.

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A tenda de Mohammed e sua família ao anoitecer em Shi’B Al Butum. Yatta, ©EAPPI/Leonardo V.

A única menina, Ahlean, 4 anos, traz os olhos quase sempre assustados, como carregasse neles a sombra de um fantasma. É preciso paciência para ver um sorriso romper sua face e lembrar que há ali uma criança – e cada minuto de espera vale a pena. Feadi, 6, é o mais adulto. Seu rosto é a cópia do pai, não apenas na aparência, mas em uma seriedade   precoce, uma gravidade nos olhos difícil de decifrar. Ahmmed, 3, o mais tímido. Sempre que possível, está perto do pai ou da mãe, buscando algum pedaço de abrigo. Há ainda os pequenos Iúsaf, 2, que ensaia os primeiros passos, tropeçando nos desvãos da caverna, e Teerek, pouco mais de 1 ano, quase sempre chorando nos braços de Arlean, ou embalado no berço por algum de seus irmãos. Sheadi é sem dúvida o mais inquieto, o primeiro a revistar as mochilas dos visitantes, testar seus óculos e perguntar os seus nomes. Nenhum lugar lhe basta, nenhuma resposta o silencia. Parece trazer no sangue o nomadismo dos beduínos traduzido em pequenos gestos de revolta, como fugir da escola quando há visita de médicos, ou tomar emprestada nossa lanterna para um passeio noturno fora da tenda.

Ensaf, sua mãe, consegue reunir todos em torno de si, e manter uma família onde poucos veriam possível um lar. É capaz de transformar um pequeno ato, como retirar o espinho preso no pé do pequeno Teerek, em uma grande operação que mobiliza todos ao redor: alguém traz a água para limpeza, outro segura lhe as pernas, um outro, os braços, enquanto mais um o distrai da dor fazendo caretas. Seu cuidado se estende para fora dos filhos, e, quando já estamos deitados para dormir, ela nos cobre, a cada um dos AE’s, com um cobertor extra, como fôssemos mais um dos seus. Termina por ser uma grande companheira para Mohammed, cujo semblante ao deixarmos sua tenda pela manhã revela a angústia de um pai que precisa trazer estranhos para dentro de casa para proteger a própria família.

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Mohammed, 27 anos, aquecendo-se ao fogo para o chá matinal. ©EAPPI/Leonardo V.

Antes de retornar à nossa base em Yatta, peço a Mohammed para tirar uma fotografia dele com os filhos. No momento da foto, um dos garotos sai rapidamente do quadro, enquanto um de seus filhos que passava perto corre para sentar-se ao seu lado. Só depois fico sabendo que o garoto desertor é na verdade filho de um outro morador local, e não queria aparecer na imagem de uma família que não é a sua. Não é possível compreender a resistência palestina sem ter em mente esse instinto de pertencimento, de saber qual o seu lugar.

Neste momento, Sheadi me flagra com a câmera em punho. Puxa-me pelo braço, busca algumas pedras, rearranja-as em torno de um objeto que encontra no chão e pede-me para fotografar, orgulhoso de sua obra. Por alguma magia de que só as crianças são capazes, ele parece perceber que na Palestina cada imagem pode ser a última. As paisagens aqui são atravessadas por múltiplas temporalidades. As montanhas revelam o peso de uma duração geológica, e sugerem o papel do olhar no despertar do desejo pela posse da terra, que está no centro de uma disputa milenar entre os povos desta região.

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A “Fortaleza de Sheadi”. Yatta, ©EAPPI/Leonardo V.

Por outro lado, nada está seguro do amanhã – veja-se o fato: apenas na área C, atualmente, há 1.134 ordens de demolição contra tendas, casas, cavernas e quaisquer outras instalações palestinas.[4] Dividindo a existência entre o eterno e o efêmero, os palestinos carregam o peso de um anacronismo particular. Disso, provém uma espessura política difícil de mensurar. Pois cada uma daquelas ordens judiciais traz em si a possibilidade de um novo enfrentamento entre os cidadãos palestinos e as forças israelenses, entre o passado e o presente.[5]

Na Escola de Shi’B al Butum, construída com a ajuda da União Europeia, o diretor Mohammed Jaber al Nawajah explica que Sheadi e seus irmãos têm dificuldades nos estudos. “São de uma família pobre, sofrem com os ataques dos colonos judeus, estão muito assustados.”[6] (À medida que fala, a obra de Sheadi começa a fazer sentido: uma fortaleza de pedra entorno do peito.) Nawajah mostra então uma carta redigida pelos alunos do quinto e sexto graus do ensino básico, na qual, entre outras coisas, falam do medo constante em viver sob ocupação, do desejo de viverem em segurança, com liberdade, e de terem uma profissão, e me aponta Sheadi como exemplo, dizendo: “Ele quer ser engenheiro – quer aprender a construir casas”. Nunca um sonho me pareceu tão justo.

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O futuro engenheiro Sheadi, e a serenidade no olhar de quem, contra todas as apostas, ainda não desaprendeu a sonhar. Yatta, ©EAPPI/Leonardo V.

 

[1] “Os acordos de Oslo firmado entre Israel e a Organização para Libertação da Palestina, em 1933, dividiu a Cisjordânia em zonas distintas: A, B e C, sob diferentes jurisdições e níveis de controles entre elas.  A área A está sob total controle da Autoridade Palestina e consiste em áreas urbanas. Área B está sob controle civil palestino, e quanto à segurança, está compartilhada com Israel, constituindo, em grande parte, áreas rurais. A área C está sob total controle do poder militar e da Administração Civil Israelense.” Disponível em: https://www.ochaopt.org/documents/ocha_opt_area_c_factsheet_january_2013_english.pdf>. Acesso em: 11/12/2016.

[2] Ver o relatório sobre as ordens de demolição na área C produzido pela OCHA – Office for the Coordination of Humanitarian Affairs, pertencente à ONU. Disponível em: http://www.ochaopt.org/content/under-threat-demolition-orders-area-c-west-bank.

[3] Dados disponíveis em: http://www.btselem.org/settlements/statistics. Acesso em 10/12/2016.

[4] Idem.

[5] Sobre anacronismo das imagens, ver DIDI-HUBERMAN, Georges. Diante do tempo: história da arte e anacronismo das imagens. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2015.

[6] Entrevista com Mohammed Jaber al Nawajah diretor da Escola Básica de Shi’B Al Butum.

Leonardo V

EA do Grupo 63, Yatta, South Hebron Hills.

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina-Israel. Para publicar este texto ou citá-lo em outra fonte, por favor contatar a Coordenação Nacional do PAEPI através do  email paepibrasil@gmail.com.

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Entre concreto, choro e chá: demolição em Silwan – Jerusalém Oriental

Este artigo teve vários inícios. Um dos esboços contava como a estratégia política do Estado de Israel para seguir apropriando-se das terras dos/as palestinos/as se sustenta em um conjunto de técnicas operada por uma burocracia eficiente e por um dos exércitos mais poderosos do mundo. Entre estas políticas destaca-se: a construção dos muros, a restrição para se conseguir a autorização para a construção, o controle pelo exército da mobilidade dos/as palestinos/as em suas próprias terras, as prisões de crianças e adultos palestinos sem uma acusação formal, construção de assentamentos em terras palestinas.  No entanto, tudo que escrevi ficou sem sentido, sem alma, depois que conheci a família do senhor  Asma Shuikhe.

Ali, entre ferro, concreto e outros escombros estava a materialização, na esfera micro, da política tentacular do Estado de Israel. Com sua voz cansada e pausada, contou que às 3 da manhã, centenas de soldados da Forças de Defesa de Israel (IDF – Israel Defense Forces) fecharam a rua e, em pouco tempo, os 35 metros (uma expansão da casa original) foi destruída. A reforma tinha como objetivo dar mais conforto à sua família de 13 membros.

“Depois que eles terminaram a demolição, soldados entraram na minha casa [refere-se à parte da casa original, não demolida] com cachorros. Eu perguntei o que eles queriam. Um soldado respondeu: Eu faço o que eu quero!”

A família e vizinhos olhavam para os escombros como se estivessem velando um corpo de uma criatura amada. Não sobrou nada. A casa morreu. Algumas pessoas estavam em silêncio, outras evocam palavras e jogavam suas mãos para seus céus em um claro diálogo com Deus.

Enquanto conversávamos, um dos seus filhos nos oferecia chá.  O funeral de uma casa sonhada. De um lado os escombros, do outro, os poucos e pobres móveis que foram retiradas às pressas. Qual o motivo da demolição? A falta de autorização para a realização da obra.

A demolição desta casa não é “apenas” a demolição de uma casa. Conforme dito, há um conjunto de políticas eficazmente planejada para retirar as terras dos/as palestinos/as. O controle das construções é uma delas. Para se conseguir a autorização deve-se submeter um pedido a vários órgãos, nos termos de lei de planejamento e construção (Planning and Building, de 1965), que regula inteiramente o planejamento e construção em Israel, incluindo a Jerusalém Oriental[1]. Raramente uma família palestina consegue esta autorização, o processo pode levar anos e custa somas consideráveis.

De acordo com esta lei há, principalmente, três categorias de demolição realizada contra a casa ou outra estrutura: 1) punitiva; 2) necessidade militar; 3) judicial ou administrativa.[2]

As demolições por punição são realizadas nos termos do artigo 119 da Emergency Defense Regulations de 1945, em situações onde um ocupante da casa foi encontrado envolvido ou com suspeita de envolvimento em atos de violência contra o Estado de Israel. As autoridades militares também podem autorizar demolições, uma medida que, em certas circunstâncias, é permitida sob a internacional lei, mas é estritamente limitada nos casos de absoluta necessidade militar. De acordo com a lei de planejamento e construção, as demolições judiciais ou administrativas (as que acontecem com maior frequência), são realizadas nos casos onde a casa ou outra estrutura é construída sem a permissão. A demolição da casa daquela família que conheci naquela manhã, insere-se nesta categoria. Mas seria “apenas” a casa dele?

A família vive em Silwan Valley, na Jerusalém Oriental[3], área com aproximadamente 55.000 palestinos/as e 400 judeus/judias espalhados/as em vários assentamentos.[4] Cerca de 99% dos pedidos de permissão para construir ou reformar feitos por palestinos são negados. Ainda naquela manhã visitei outras duas construções que foram demolidas (um abrigo para animais – com o confisco do cavalo pelo Estado – e uma outra casa que abrigava 09 pessoas), todas na mesma área.[5]

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Jerusalém Oriental – Demolição em Silwan. ©EAPPI/Berenice B

Como em toda a Jerusalém Oriental, a infraestrutura nesta área é pobre, embora os/as palestinos/as sejam obrigados/as a pagar todos os impostos ao Estado de Israel. As ruas não têm asfalto de qualidade, a iluminação pública é precária e o lixo espalha-se por todas as partes.

Enquanto conversávamos, Sr. Asma Shuikhe me mostrava a incoerência da lei.

“Você está vendo aquela casa? A que tem uma bandeira de Israel? Ele é uma casa de um colono judeu. ” [Era uma casa de três andares que se destacava pela ostentação das outras da mesma rua.]

Continuou:

“Nós, palestinos, nunca conseguimos permissão para fazer nada em nossas casas. Gastamos muito dinheiro e nunca conseguimos. Israel quer expulsar todos nós. Como conseguir uma autorização para fazer reformas ou construir uma nova casa?”

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Jerusalém Oriental – Escombros da casa. ©EAPPI/Berenice B

Jerusalém Oriental é considerada território ocupado. Desta forma, a transferência de civis é proibida de acordo com o direito internacional humanitário.[6] Ainda de acordo com a internacional lei humanitária, uma ordem para expropriação de terra para ser legal, deve beneficiar a população local que está sob ocupação. No caso de Jerusalém Oriental, contudo, a vasta maioria de terras expropriadas, anteriormente propriedade de palestinos, foram para beneficiar os judeus israelenses.

Quando Sr. Asma Shuikhe afirma que o Estado de Israel quer expulsar os/as palestinos/as de suas terras, a demolição de sua casa passa a ter um sentido mais amplo e conecta-se com o projeto política mais amplo e tentacular. A aparente fragmentação desaparece e o que poderia ser interpretado apenas como uma questão de uma burocracia estatal perversa e eficiente, passa a ter outros sentidos.

[1] Todos os documentos para requerer autorização devem ser submetidos em hebraico. Para entender os mecanismos burocráticos necessários, ver: Fact sheet: applying for a building permit in East Jerusalem.  Norwegian Refugee Council (NRC), May, 2013.

[2] In: Information, counselling and legal assistence programme in the occupied Palestinian territory. Fact sheet: FAQS on mainn legal issues in East Jerusalem, May, 2013.

[3] Durante a guerra de 1948, Israel apoderou-se da área ocidental de Jerusalém. Em  junho de 1967,  Israel ocupou a Cisjordânia, incluindo a parte oriental de Jerusalém. De acordo com a lei de Israel, os palestinos de Jerusalém Oriental são considerados “residentes permanentes” e não cidadãos.

[4] Para acompanhar as demolições e prisões dos/as palestinos/as moradores/as desta área, ver: http://silwanic.net/?p=53269;

http://alt-arch.org/en/about-us/

[6] De acordo com o Statute of the International Criminal Court, esta prática também constitui um  crime de guerra em conflitos armados internacionais. Os assentamentos estabelecidos e expandidos em todo o território ocupado da Palestina, incluindo Jerusalém Oriental, tem sido repetidamente confirmado pelo Conselho de Segurança da UNO como ilegais.

 

Berenice B

EA do Grupo 63, Jerusalém

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina-Israel. Para publicar este texto ou citá-lo em outra fonte, por favor contatar a Coordenação Nacional do PAEPI através do  email paepibrasil@gmail.com.

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A demolição pode vir a qualquer momento

Os Acompanhantes Ecumênicos na Palestina se dividem em seis times, em seis regiões diferentes da Cisjordânia ocupada. Cada região tem suas especificidades – alguns monitoram check points por onde passam os trabalhadores, outros acompanham crianças a caminho da escola, por exemplo. Mas há um tipo de incidente que tem se tornado cada vez mais comum em todas as regiões: as demolições levadas a cabo quase que diariamente pelas forças de segurança israelenses.

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Mapa Restricting Space in the OPT: Area C Map  UN/OCHA

Desde os Acordos de Oslo de 1993, o território da Cisjordânia ocupada foi dividido em três áreas: a Área A, que fica sob controle civil e securitário da Autoridade Palestina (AP); a área B, onde a AP lida com os assuntos civis mas os órgãos militares israelenses se encarregam da parte de segurança; e a área C, que fica totalmente sob controle do poder ocupante tanto em assuntos militares quanto civis, o que inclui planejamento urbano e concessão de permissões para qualquer tipo de construção. A área C corresponde a cerca de 60% do território da Cisjordânia, enquanto que 22,8% é área B (os centros dos vilarejos rurais) e apenas 17,2% é considerado área A (os centros urbanos) [1]. Como mostra o mapa do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (UNOCHA), a única área contígua da Cisjordânia é a C, enquanto que as áreas A e B são como ilhas de territórios mais ou menos autônomos. Toda a extensão das fronteiras, assim como as principais estradas, são controladas pelas forças israelenses.

Essa divisão deveria ser temporária e teoricamente tinha por objetivo facilitar a retirada gradual do exército israelense da Cisjordânia: dentro de cinco anos, a área C deveria ser considerada B e as áreas B deveriam virar A – mas isso nunca aconteceu.

Apesar de ser, hoje, irregular, essa divisão afeta a população palestina todos os dias, especialmente aqueles que vivem em área C. Eles são impedidos de construir novas casas ou abrigos para seus animais e até de reformar antigas estruturas sem antes conseguir permissão das autoridades israelenses. O processo para se candidatar a uma permissão é burocrático, demorado, caro, e mesmo assim é praticamente impossível que ela seja concedida [2]. Dessa forma, é muito comum que as famílias comecem a construir suas casas sem autorização. Nesses casos, as autoridades israelenses podem demolir as construções a qualquer momento.

Foi o que aconteceu com a comunidade beduína de Ein Ar-Rashash. Aqui, o alvo das demolições não eram nem sequer estruturas permanentes, mas tendas.

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Vilarejo beduíno de Ein Ar-Rashash, Nablus. EAPPI, EA Jade.

 

Todo o vilarejo foi demolido em fevereiro deste ano. Nos dias que se seguiram novas tendas foram providenciadas pela ONG Acted e em pouco tempo a comunidade se reergueu, mas desde então eles vivem sob constante ameaça de uma nova demolição. As 12 famílias que formam essa comunidade já tem um histórico de deslocamentos: antes da fundação do Estado de Israel em 1948, viviam no deserto do Negev; depois disso foram forçadas a se mudar para El-Khalil (Hebron), depois para os arredores de Jerusalém Oriental, para os arredores de Jericó e agora vivem aqui, em Ein Ar-Rashash, na região de Nablus, porção norte da Cisjordânia. Ao ser perguntado sobre o que espera do futuro, Ali Sahwahra responde:

“Que futuro? Estamos sitiados aqui. Não podemos ir a lugar nenhum porque cada vez mais terras na nossa volta viram assentamentos ou zonas de treinamento militar. Nem de noite temos descanso. Geralmente as pessoas dormem e descansam à noite, mas aqui, de noite ficamos ainda mais tensos. Dormimos ansiosos, de meia em meia hora, porque a qualquer momento o exército ou os colonos podem chegar e fazer o que quiserem conosco.”

O vilarejo beduíno de Al-Araqib oferece um exemplo extremo desse tipo de situação: no dia dois de novembro, a comunidade foi demolida pela 105ª vez desde 2010 – sendo que a penúltima demolição havia ocorrido menos de um mês antes, no dia 6 de outubro.  [veja as notícias aqui e aqui]

Segundo o artigo 53 da IV Convenção de Genebra, referente à proteção de civis em tempos de guerra e em territórios ocupados, é proibido ao poder ocupante destruir qualquer tipo de construção no território ocupado, exceto se absolutamente necessário para fins militares. Em casos como os dessas vilas beduínas, demolidas e reconstruídas incontáveis vezes, não fica claro que tipo de ameça as tendas, as famílias e os rebanhos representam à segurança do Estado de Israel. Mesmo assim, de tempos em tempos, as escavadeiras chegam e colocam tudo abaixo mais uma vez.

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Escombros de lojas demolidas em Beita. EAPPI, EA Jade.

 

Na verdade, nem é necessário que a construção seja considerada irregular para que seja demolida. A cidade de Beita, na região de Nablus, é majoritariamente área B, o que significa que é necessário apenas conseguir permissão das autoridades palestinas para construir. Na madrugada do dia três de novembro, três lojas foram demolidas pelas forças militares israelenses. Os terrenos são de propriedade privada e estavam sendo alugados com permissão da prefeitura de Beita. Mohammed A., dono de uma dessas lojas, trabalha com alguns familiares e a renda do negócio sustenta suas respectivas famílias, o que soma cerca de 60 pessoas. Mohammed nos conta que recebeu a ordem de demolição há um ano e meio, e desde então já havia tomado medidas legais por meio de um advogado, alegando que o terreno estava em área B e a construção estava regularizada – esforço em vão.

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Mohammed A., à esquerda, sobre um viga em meio aos escombros. EAPPI, EA Jade.

Apesar das dificuldades e do sentimento permanente de insegurança, a vida segue em frente sob a ocupação militar. No dia seguinte à demolição, Mohammed e alguns familiares já se empenhavam na reconstrução das estruturas que haviam sido destruídas.

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População atingida trabalha para reconstruir as lojas demolidas, Beita. EAPPI, EA Jade.

A política de demolições executada por Israel é ilegal do ponto de vista do direito internacional em mais de um aspecto, pois contraria a IV Convenção de Genebra e se baseia em um mecanismo criado para ser temporário, que deveria ter acabado em 1998. Para a população palestina, é um beco sem saída: não é possível construir na maior parte das terras, e, mesmo nos vilarejos onde deveria ser possível, as forças israelenses podem demolir sem restrições. A sensação de vulnerabilidade é permanente, mas a população resiste a cada vez que decide reerguer suas casas, suas lojas, os abrigos de seus animais. Por aqui, existir é resistir.

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[1] Norwegian Refugee Council Training Manual (2015): Housing, Land and Property in the West Bank, Area C. pg. 18

[2] Norwegian Refugee Council Training Manual (2015): Housing, Land and Property in the West Bank, Area C. pg. 32-22

 

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EA do Grupo 62, Yanoun

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